Critérios técnicos para escolher espécies em pesqueiros e evitar prejuízos
Como clima regional e convivência entre peixes determinam o sucesso ou o fracasso do pesqueiro no Brasil
Escolher as espécies certas para um pesqueiro é uma decisão que vai muito além da preferência do público ou da disponibilidade de alevinos no mercado. No Brasil, onde o clima varia drasticamente entre regiões e onde os pesqueiros atendem perfis muito diferentes de pescadores, erros nessa escolha estão entre as principais causas de prejuízo financeiro. Na maioria das vezes, essas perdas não acontecem de forma imediata ou evidente, mas se acumulam silenciosamente ao longo do tempo, comprometendo a rentabilidade do negócio.
Um pesqueiro pode parecer bem povoado, movimentado e atrativo, mas ainda assim sofrer com mortalidade elevada, crescimento lento dos peixes ou queda gradual do estoque. Quando isso acontece, quase sempre há dois fatores em comum: espécies mal adaptadas ao clima local e mistura inadequada de peixes com comportamentos incompatíveis. Esses dois pontos formam a base dos critérios técnicos que devem orientar qualquer investimento consciente.
Neste artigo, a abordagem é nacional, considerando a realidade do Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. Ao mesmo tempo, é incorporado um recorte prático do Sul do Brasil, onde, por experiência consolidada, muitos pesqueiros mantêm predadores e peixes pacíficos juntos no lago principal. Essa prática pode funcionar, mas não é regra geral e exige cuidados específicos.
Por que critérios técnicos são mais importantes que a popularidade das espécies
A popularidade de uma espécie entre os pescadores não garante que ela seja uma boa escolha para todos os pesqueiros. Peixes fora da sua faixa ideal de temperatura apresentam menor eficiência alimentar, crescem menos e ficam mais suscetíveis a doenças. Além disso, espécies com comportamento agressivo ou predatório alteram toda a dinâmica do tanque, impactando inclusive peixes que não são diretamente predados.
Quando decisões são tomadas apenas com base na demanda do público, o pesqueiro passa a operar no limite do risco. Já quando critérios técnicos orientam essas escolhas, o negócio ganha previsibilidade, estabilidade e maior controle de custos. Portanto, evitar prejuízo começa pela compreensão de que nem todo peixe “da moda” é um bom investimento para qualquer região.
Clima regional e adaptabilidade das espécies
Sul do Brasil: resistência ao frio e limites do modelo misto
No Sul, a temperatura da água durante o inverno é um fator central. Espécies como traíra, carpas (capim, húngara, prateada, cabeça grande e koi) e jundiá apresentam alta tolerância ao frio, o que explica sua ampla presença histórica nos pesqueiros da região. Tilápias e pacus também são comuns, mas entram em fase de menor atividade metabólica nos meses frios, reduzindo alimentação e crescimento.
Por experiência prática, é comum encontrar no Sul lagos principais com traíras, dourados, carpas, tilápias e pacus convivendo no mesmo ambiente. Esse modelo funciona especialmente em pesqueiros grandes e antigos, onde os peixes cresceram juntos, atingiram portes semelhantes e o manejo é constante. O risco surge quando esse contexto é ignorado, principalmente na introdução de peixes pequenos em lagos já dominados por predadores adultos.
Sudeste: diversidade maior, mas com variações climáticas
No Sudeste, a diversidade de espécies é maior, incluindo tambaqui, pacu, pirarara, dourado, tucunaré em alguns locais e até pirarucu. Embora o clima seja mais ameno do que no Sul, quedas bruscas de temperatura ainda ocorrem e podem afetar espécies estritamente tropicais.
Peixes como pirarucu e pirarara exigem tanques profundos, água estável e manejo profissional. Em pesqueiros de menor porte, o custo para manter essas espécies saudáveis muitas vezes supera o retorno financeiro, transformando um peixe atrativo em um investimento arriscado.
Centro-Oeste: calor predominante e oxigenação como desafio
No Centro-Oeste, o clima quente favorece espécies amazônicas e de águas mais quentes, como tambaqui, pacu, pirarara, cachara, pirarucu, traíra, traírão e tucunaré. No entanto, o calor excessivo reduz o oxigênio dissolvido na água, exigindo sistemas eficientes de aeração.
Espécies mais adaptadas a águas frias ou muito oxigenadas, como algumas carpas e jundiás, passam a demandar manejo intensivo. Quando esse custo adicional não é considerado, o prejuízo aparece de forma gradual.
Nordeste: estabilidade térmica e controle da qualidade da água
No Nordeste, a temperatura elevada e relativamente constante favorece espécies tropicais durante todo o ano. Tambaqui, pacu, pirarara, pirarucu, traíra, traírão e tucunaré apresentam boa adaptação, desde que a qualidade da água seja rigorosamente controlada.
Por outro lado, espécies tradicionalmente associadas a regiões mais frias, como carpas, tendem a apresentar desempenho inferior. Nesses casos, insistir nessas espécies costuma resultar em baixo crescimento e retorno financeiro limitado.
Tabela – Clima regional e risco de prejuízo
| Região | Espécies que exigem cautela | Motivo principal |
|---|---|---|
| Sul | Tambaqui, pirarucu, pirarara | Frio intenso |
| Sudeste | Pirarucu, pirarara | Frio ocasional |
| Centro-Oeste | Carpas, jundiá | Calor e oxigênio |
| Nordeste | Carpas | Estresse térmico |
Convivência entre espécies: quando a mistura gera perdas silenciosas
Predadores e peixes pacíficos no mesmo tanque
Em todas as regiões do Brasil, a mistura entre peixes predadores e peixes pacíficos é uma das maiores fontes de prejuízo em pesqueiros. Traíras, traírões, dourados, tucunarés, pirararas, cacharas e surubins possuem comportamento predatório bem definido. Quando convivem com peixes menores, a predação ocorre de forma silenciosa, geralmente fora do horário de pesca.
Tilápias jovens, carpas recém-soltas e pacus pequenos tornam-se presas fáceis. O gestor percebe apenas a queda no estoque, muitas vezes atribuindo o problema a roubo, doenças ou falhas de reposição, quando a causa real é a convivência inadequada.
Quando a mistura funciona — e por que não é regra nacional
A experiência prática mostra que, em alguns contextos, especialmente no Sul, a mistura de predadores e peixes pacíficos no lago principal pode funcionar. Isso ocorre quando o lago é grande, os peixes possuem tamanhos semelhantes e o gestor entende que certa taxa de predação faz parte do sistema.
Ainda assim, esse modelo não deve ser tratado como regra nacional. Em pesqueiros novos, pequenos ou em regiões mais quentes, a tendência é que a predação cause perdas mais rápidas e difíceis de controlar.
Tabela – Mistura de espécies e nível de risco
| Tipo de mistura | Nível de risco | Observação |
|---|---|---|
| Predadores + juvenis | Muito alto | Deve ser evitado |
| Predadores + adultos | Médio | Exige controle |
| Apenas peixes pacíficos | Baixo | Mais previsível |
| Tanques separados | Muito baixo | Maior segurança |
Espécies atrativas que exigem análise antes do investimento
Algumas espécies chamam a atenção do público, mas exigem critérios técnicos rigorosos. Pirarucu e pirarara, por exemplo, agregam valor visual e esportivo, porém demandam infraestrutura avançada. O dourado é altamente esportivo, mas aumenta o risco em tanques mistos.
Esses peixes não são inviáveis, mas devem ser tratados como investimentos estratégicos, e não como espécies comuns de lago principal.
Conclusão
Evitar prejuízo em um pesqueiro brasileiro depende, essencialmente, da aplicação de critérios técnicos na escolha das espécies. Clima regional e convivência entre peixes são fatores que não podem ser ignorados. O que funciona em um pesqueiro consolidado do Sul pode não funcionar em um empreendimento novo no Nordeste ou no Centro-Oeste.
A experiência prática mostra que misturas comuns, como as observadas no Sul, podem ser viáveis em contextos específicos. Ainda assim, a decisão mais segura, em nível nacional, continua sendo respeitar o clima local, o comportamento das espécies e os limites do tanque. Planejamento, observação constante e manejo consciente transformam diversidade em equilíbrio — e equilíbrio em lucro.
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Referências técnicas
- EMBRAPA Pesca e Aquicultura. Piscicultura continental: manejo, espécies e sistemas de produção no Brasil. Palmas: Embrapa, diversos boletins técnicos.
- EMBRAPA. Boas práticas de manejo na criação de peixes em viveiros escavados. Circular Técnica.
- FAO – Food and Agriculture Organization of the United Nations. Cultured Aquatic Species Information Programme. Roma: FAO.
- OSTRENSKY, A.; BORGHETTI, J. R.; SOTO, D. Aquicultura no Brasil: o desafio é crescer. Brasília: FAO / Ministério da Pesca e Aquicultura.
- KUBITZA, F. Nutrição e alimentação de peixes cultivados. Jundiaí: AcquaSupre, 2011.
- KUBITZA, F. Manejo na produção de peixes. Panorama da Aquicultura, diversos artigos técnicos.
- EMATER/RS-Ascar. Piscicultura: manejo de espécies e controle de qualidade da água no Sul do Brasil. Porto Alegre.
- EMATER/MG. Criação de peixes em viveiros: espécies, clima e manejo. Belo Horizonte.
- BALDISSEROTTO, B. Fisiologia de peixes aplicada à piscicultura. Santa Maria: UFSM.
- ZANIBONI-FILHO, E.; WEINGARTNER, M. Biologia e cultivo de peixes de água doce. Florianópolis: UFSC.
- LOWE-MCCONNELL, R. H. Ecological studies in tropical fish communities. Cambridge University Press.
As informações apresentadas neste artigo são baseadas em literatura técnica de piscicultura continental, publicações de instituições de pesquisa e extensão rural, além de experiências práticas consolidadas em pesqueiros brasileiros.


